quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Sobre quedas

Ah, se toda queda que causasse discussão fosse como as do Neymar...
Difícil mesmo é segurar alguém pra não cair, sabendo que nem sempre estará lá.
Desafio é ensinar a socorrer, na esperança de ver socorrido quando necessário.
Bonito é testemunhar a vontade de aprender a dar socorro, numa idade em que pouco se sabe da vida.
Digno de manchete é ouvir que disseminar esclarecimentos sobre a queda, mesmo que não beneficie a pessoa diretamente, ajuda também os outros, numa corrente do bem.
Até que acompanhar as celeumas sobre as jogadas no campo, que geram tanta preocupação na Copa, distrai.


4 de julho de 2018

Laranja ou limão


O ser humano é curioso.
Vislumbrando qualquer benefício, age por impulso, faz o que dá na telha, sem pedir opinião. Por vezes, é feliz às escondidas e à revelia de advertências. Os bônus são dele, ninguém tem nada a ver com sua vida.
O interessante é que, quando chega o estrago, aquele ser autoconfiante perde repentinamente a capacidade de escolha. 
É aí que entra o laranja do destino. O colega, o amigo, o parente, o terapeuta leigo, o anjo da guarda, o patrão, o líder espiritual. O sábio de ocasião, chamado a decidir o que o desbaratinado deve fazer, até mesmo a atuar diretamente na solução do contratempo. Os ônus são do auxiliar, que tem os próprios problemas para resolver.
Compartilhar o sucesso raros querem. Já distribuir o prejuízo e jogar a responsabilidade nas costas alheias, vários preferem.
Qual o sentido de ser laranja na vida? 
Trocar experiências é saudável, ajudar é preciso. Mas tomar decisões e agir no lugar de alguém, incentivando o comodismo, é perigoso. Cada pessoa com seu quinhão de bifurcações.
Preferível ser limão. Suficiente dizer NÃO.

4 de julho de 2018

Encontros possíveis


O melhor amigo diz que seu nome estava na lista do aniversário, porém foi cortado quando a mãe soube que são três irmãos. Os dois falam sobre os presentes, sorriem e brincam. Se os coleguinhas aproveitam diariamente o tempo precioso que passam juntos, quem precisa de festa? E tudo bem.
Um grande parceiro o convida para o evento, deixando de chamar o irmão. Ele aceita e o outro entende; os meninos não nasceram grudados. O convidado comemora os anos do amigo querido, reportando os momentos felizes assim que entra no carro. Se as crianças passam os dias juntas, qual o problema de se separarem na hora da diversão? E tudo bem.
Inevitavelmente, todo anfitrião seleciona os convidados para seus eventos, por razões que a ninguém compete questionar. Orçamento apertado, espaço restrito, tema escolhido, falta de afinidade, religião, posicionamento político, a cor do céu. Tanto faz. E tudo bem. 
Além disso, é natural recusar um convite, por motivos que não estão sujeitos a debate. Problema de saúde, dificuldade de locomoção, impossibilidade técnica, ausência de vontade, programação diversa, o humor do dia. Agradeça a lembrança, decline com educação. E tudo bem.
É muito bom celebrar e ser celebrado, aproveitar festividades, curtir reuniões com familiares e amigos.
Mas estabelecer limites, reduzir listas, não receber convites, renunciar a chamados, aceitar recusas, faz parte do crescimento. Em qualquer desses casos, é preciso ser maduro o suficiente para não se sentir abandonado e/ou evitar constrangimentos. Isso se aprende desde a mais tenra idade.
Um festejo marca um acontecimento específico, uma data na agenda infinita da existência. O mundo não vai acabar se você não for lembrado, muito menos se tiver um convite rejeitado.
Mais importante é transformar os encontros possíveis em acontecimentos memoráveis. Tudo pode ser fonte de alegria: a brincadeira de rotina, o café marcado, o esbarrão fortuito, o compromisso de trabalho, o lanche improvisado. A festa interna não tem dia nem hora para acontecer.
O que é um quadradinho do calendário, meu filho, na imensidão de oportunidades da vida? 
Cada qual com sua realidade. Convida quem quer ou pode, aceita aquele que deseja ou consegue. Compreenda. Respeite. Queira bem do mesmo jeito. E tudo ótimo.

Da série "Para os meus filhos"

28 de junho de 2018

Dicas para quem não vive isolado na caverna ou na colina


Você não realizará apenas o que quer.

Você não fará somente o que gosta.
Você terá regras para seguir.
Você não se simpatizará com todos. 
Você aceitará que não gostem de você.
Você enfrentará desafios em grupo.
Você terá regras para seguir.
Você ouvirá deduções a seu respeito.
Você aprenderá a ser resistente.
Você saberá para quem vale responder.
Você terá regras para seguir.
Você acreditará no seu potencial, sem desmerecer o brilho alheio.
Você conseguirá tirar o máximo das oportunidades.
Você dará o melhor de si.
Você terá regras para seguir.
Até o fim. Até que o prêmio do isolamento chegue.
Assim é a vida. Seja forte. Respeite.

Da série "Para os meus filhos"


27 de junho de 2018



Olhar para além da vontade de ajudar


Diante de um pedido de ajuda, é imprescindível prestar atenção. Olhar para além da vontade de ajudar. Enxergar aquele que roga por auxílio, compreendendo o sentido do pedido.
Em momentos de furacão a bondade aflora, e isso é lindo. 
Entretanto, havendo divergência entre o que o outro pede e o que se pretende fazer, é imperioso questionar. Por que ele necessita daquilo? Qual a razão de recusar os termos da oferta? Como a solução fácil o afetaria negativamente?
Em situações de impotência, a linha que separa a boa intenção e a arrogância é tênue.
Ajudar segundo o próprio entendimento, desconsiderando a lucidez do outro, é colocar o ego, a ilusão de heroísmo e a prepotência à frente do necessitado. É mostrar-se superior ao sofredor, na indecência de definir o que ele precisa.
Insensato é invalidar o que o outro sente, apenas porque é mais cômodo auxiliar de certo modo. 
Cruel é atravessar os olhos daquele que se ajoelha e implora, explicando exaustivamente, e ignorar o que ele diz. 
Impiedoso é partir do pressuposto de que ter uma doença, uma incapacidade física, um desafio perene ou temporário, é sentença para interdição. Deve-se deixar o laudo para os profissionais e, diga-se de passagem, não é aconselhável crer em todos.
Sempre vale uma quinta opinião.
A dor machuca, traz destempero, muda a rotina, mas não mata o ser pensante no corpo que padece. Se não quis o destino trazer o atestado de óbito, há que se considerar o pedido e o pedinte. 
Quantas vezes a mão estendida, na realidade, só faz retirar o pouco que resta do moribundo?
Se ele quer limpar a própria ferida, deixemos. É um alento conseguir cuidar de si mesmo até a idade em que as mãos e a cabeça não aguentem mais.
Se ele não quer a louça lavada, respeitemos. O prato não vai apodrecer em um dia, e a pia suja dá a esperança de que amanhã ele se levantará da cama. 
Se ele explica que o caos é temporário e contornável, dizendo que fará o possível assim que a poeira baixar, concedamos um voto de confiança.
Esperemos um pouquinho mais. Pensemos antes de agir pelo outro. A luta é dele.
Nosso desafio é apoiar na retaguarda, isso é que é belo. 
A ferida que se tapa com esparadrapo pode ser aquela que ensina como respirar. A pia que se deixa brilhante pode ser o atestado da perda de controle. O pó que se retira com o pano pode ser aquele que falta para a fênix ressurgir das cinzas. A roupa que se joga na máquina pode ser a última que aquece a alma dilacerada. A conversa que se despreza pode ser a demonstração do mais alto nível de autoconhecimento daquele que enfrenta a turbulência. 
Acreditar que fazer o que convém significa ajudar é sinal de incompreensão.
Porém, sejamos justos. 
A frieza disfarçada de bondade e a arrogância de quem dita regras para o padecimento alheio podem se transformar num grande remédio. O antídoto para o delírio de que não se sofre sozinho. O colírio para vislumbrar que estar ao lado não significa estar junto. O multivitamínico que dá energia para deixar a bagagem da dependência emocional e seguir em frente.
Eis que a alta inesperada faz o altruísmo aparecer e correr atrás, jogando a máscara no chão. "Puxa, ele precisava de água, e eu insistindo em oferecer o feijão! Estava disponível na prateleira..." 
Assim é: damos o que não nos tira o conforto e nos custa menos. 
Acontece que água dá em poço, meus caros. Quando está difícil obter um copo ou a torneira fecha, o universo traz forças para cavar ou enfrentar os espinhos dos cactos, diante ou distante da fonte que secou. Por vezes, gotas caem do céu e encontram a cuia feita com as próprias mãos. Onde há vida, há condição na solidão.
Perante a súplica, o clamor e a reclamação, é de suma importância deixar os olhos e o coração abertos.
Fazer o bem sem olhar a quem? Sim.
Fazer o bem, olhando profundamente para quem? Também.

24 de junho de 2018

Sobre ser livre (a cara-metade)


Encontrou sua cara-metade, meu filho? Está gamado? Senta aqui, vamos conversar.
Namoro é etapa de conhecimento, troca de ideias, exposição de expectativas. Cada um diz o que gosta e o que não aceita. É o princípio do acordo, em que as partes envolvidas analisam o que vale ou não a pena ceder. Você vê o amor na vitrine, analisa as condições e tem um tempo para se apaixonar. Aproveite para se revelar por inteiro, lembrando que você é livre.
Noivado é etapa de amadurecimento, teste de compatibilidade entre seres criados em mundos diferentes, com visões e promessas distintas. Você analisou, gostou, está disposto. Use esse período para descobrir se está mesmo preparado para as renúncias que a vida a dois traz. Pense bem, sem esquecer que você é livre.
Casamento é contrato, vitalício a princípio, que engloba tudo o que foi discutido e aceito nas etapas anteriores. É sua obrigação respeitar o amor. 
Assim, você não pode alterar as cláusulas do contrato unilateralmente, simplesmente porque mudou de ideia. Você não deve ignorar as condições e expectativas do outro, acatadas no momento oportuno, apenas porque as coisas estão difíceis. 
Pode não ser eficaz trazer mediador espontâneo para os conflitos que surgirem na prática da convivência. Saiba que o conselheiro enfrenta suas próprias batalhas e pode transferir suas dores e cores. Muito menos apropriado, é dividir a atenção e o carinho com terceiros não envolvidos na relação, sob qualquer justificativa. 
Pouco saudável, também, pedir revisão contratual que possa ferir os princípios da pessoa amada, as cláusulas pétreas da relação. Exponha suas angústias, dúvidas e necessidades de forma a não agredir o coração que pulsa ao seu lado. Converse. 
Então, meu filho, aprenda. A liberdade é o tom da vida, mas ela tem um preço. Você será livre para ficar só. Você será livre para namorar. Você será livre para entrar num relacionamento. 
Entretanto, se você pretende se casar, analise bastante. Você estará algemado ao pulso alheio, por opção própria. Será seu dever comportar-se como uma pessoa comprometida em casa, na rua, no trabalho, na fazenda, em qualquer lugar. Você enfrentará as adversidades que aparecerão, em atenção ao amor dedicado, sem fugir das linhas que norteiam o compromisso. Você terá que ser forte, sem esmorecer pela via mais fácil na cortina de fumaça.
Você se comprometerá de forma voluntária, mas ficará preso às consequências de ter uma relação. Entretanto, você sempre será livre. Dessa vez para sair, prendendo-se, porém, às consequências desse ato.
Como diz a música, meu filho, "cada escolha uma renúncia, isso é a vida".
  Quando você respeita o acordo feito com o outro, você se respeita. E renuncia feliz.

Da série: "Para os meus filhos"

      9 de junho de 2018








Nota da Reclamilda



Sabe aquela pessoa "acumuladora, com TOC, metódica e perfeccionista" que você sempre critica? Ops... Critica não, porque a crítica também é exclusiva dela, ninguém mais julga o próximo. Os outros só apontam qualidades.
Como aguentar a neurótica, sem revirar os olhos ou fazer piadinha quando vem outro apontamento de bagunça, ela mostra o novo endereço das toalhas ou diz que vai guardar a tampinha da garrafa?
Pois bem.
É para ela que você incansavelmente pede dicas, que nunca segue. É dela que você se lembra quando a escola pede material de sucata. É ela que te socorre quando precisa consertar algo, usando o 'lixo' que você jogaria fora. É para ela que você pergunta onde estaria o objeto ultra importante, que você deixou sobre a cadeira por dias e pensava ter se escondido no armário sozinho. 
É graças a ela que você encontra o CD na prateleira, o caderno de anotações perdido na gaveta, os livros para recorte, o reciclável para o robô da feira de invenções, a frigideira para se aventurar na omelete. Etc, etc, etc. 
Como é bom ter tudo na mão!
Mas... Será que algo tão legal pode ter surgido da maluca do Bonde da Organização mesmo? Ou terá sido obra da Fadinha da Arrumação, prima da Fada do Dente, que age enquanto a despirocada não faz nada, só fica em casa?
Choque de realidade.
Quando o trabalho doméstico é gratuito, a pessoa é paranóica e incomoda bastante, seja apenas à noite ou em período integral. Coisa chata que é azucrinação de quem reclama do sapato jogado!
Sendo o serviço remunerado, a ajudante sempre recebe demais. Um abuso ganhar o equivalente à farra do fim de semana, para fazer tão pouco por quem se descabela quando ela falta!
Na boa, chame do que quiser. Ela sabe o valor do que faz.
A verdade é que a Reclamilda usa um talento: o dom de deixar tudo arrumado, que nem todos têm. Ela gasta, e com prazer, sua ínfima energia para melhorar o mundo à sua volta. Para ela, o metro quadrado mais importante está no aconchego do lar.
Beijinho no ombro pra dor de cotovelo. O talento é nato, mas também pode ser adquirido por quem estiver disposto. Basta querer.
Saudações para quem acha exagero, mas adora aproveitar o resultado do esforço alheio.
Pela valorização do trabalho doméstico, sempre!

Da série: "Para os meus filhos"


7 de junho de 2018

Escrevo porque preciso

Escrever é uma necessidade...  O pensamento chega, o texto se ajusta de forma meteórica e necessita ser externado. Um process...