sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Luto retroativo

 

Quando você ficar doente, o que vai acontecer?

Anjos humanos te ajudarão sem pestanejar.

Generosos perguntarão como você está.

Religiosos rezarão por você.


Retrógrados evitarão o nome daquela doença.

Desavisados dirão que foi sorte, porque você tem o câncer bom.

Insensíveis perguntarão o que você fez para ter isso.

“Terá sido o estilo de vida? A água? A mágoa? A disputa árdua?”


Autocentrados ignorarão seu momento difícil.

Buscarão seus conselhos de vida, despejarão mais problemas,

quando você se arrasta para levar as obrigações do dia.


Serpentes verão uma internação como a chance para dar o bote. 

Mal-acostumados sentirão falta do que você não pode mais oferecer.

Equivocados confundirão seus apontamentos legítimos com desequilíbrio.

Arrogantes usarão sua fragilidade para desprezar suas súplicas.

Sua lucidez será posta à prova na disputa por prioridade.


Certo dia, você descobrirá que morreu:

Uma edição sua se foi. Sem velório, sem enterro, sem uma lápide.

Sem choro nem vela, enquanto você lutava para se adaptar à nova vida.

Seus filhos pouco se lembrarão da sua versão inteira.

Alguns nunca conhecerão a fortaleza que você era.


Reticentes não colaborarão para sua paz de espírito.

Indiferentes questionarão seus desabafos.

“Você é forte, você aguenta, tem gente que passa por coisa pior.

Ninguém precisa se preocupar com os seus sentimentos.

Afinal de contas, você sente?”

 

Você precisará escolher suas batalhas.

Chorará o luto de si mesma, do respeito que perdeu, do apoio que não teve.

Desconfiará que, para alguns, a utilidade era seu maior valor.


Por sorte, como uma fênix que renasce das próprias cinzas, você acordará.

Olhará para o passado com respeito e gratidão.

E seguirá, resiliente, como sempre foi.

Novos desafios virão.

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