quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Um sonho

Eu criaria uma regra básica:


  "Aqueles que, qualquer que seja o motivo ou a origem do vínculo, forem responsáveis por cuidar de menores incapazes, serão agraciados com uma saúde de ferro, pelo menos enquanto perdurar a obrigação. Finda esta, fica o desobrigado completamente disponível para os infortúnios da vida."

Sonhar não custa nada. Mas mesmo que fosse possível, de nada serviria, já que a tônica do mundo é fazer leis para não serem cumpridas. 

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Diploma entregue (novos rumos)


Resumo da ópera:
Processo de escolha adequado, novo lugar, momento mais tranquilo, nenhum questionamento - qualquer justificativa além do "eu sou grande e já posso estudar como meus irmãos" é desnecessária.
O menino entra feliz na sala, sem ao menos olhar para trás, e sai radiante horas depois. Adaptação imediata, mas no coração da leoa ainda resiste, embora fraquinha, aquela lenga-lenga apegada. 
No dia seguinte, um pai e uma mãe relatam sua saga. Eles estão radiantes por ver, na entrada de seu pequeno na escola, uma grande vitória na luta incansável e sofrida pela vida. Significa que ele tem saúde, é livre para ter contato com o mundo, fazer amizades, apreciar as árvores.
Clique para os 99,9% de pontos positivos. *Seu filho é saudável. Houve a bênção de retomar os planos e corrigir os equívocos que a urgência maquiava. Você agora pode acompanhar, levar e buscar*. Felicidade.
Uma semana depois, a vida apresenta mais duas guerreiras. Com humildade, mãe e filha enfrentam dificuldades e fazem sacrifícios, na fé e na esperança de que, um dia, a menina possa caminhar e aprender na escola. *Como o seu filho consegue*. Gratidão.
E foi assim que, em menos de de dez dias, quatro anjinhos ensinaram a uma adulta sobre as coisas singelas da vida: a fofura que estimulou a revisão do apego, o vencedor que desembrulhou sua medalha, a lutadora que mostrou o tamanho de sua graça, e ele - o caçula que soltou sua mão confiante, indicando que a mudança de rumo é, sim, comemorável. 
Exagero? Excesso de zelo? Falta de senso frente a problemas maiores? De forma alguma. Era o seu dilema, o seu desafio, a prova para a próxima etapa. Diploma entregue. Liberdade coletiva. Cada um seguindo seu rumo, juntos e separados. 
Claro que o fato de no final do segundo dia de aula a mamãe ter sido ignorada para o papai receber aquele abraço apertado, a gente abafa. Ah, é agosto, está explicado.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Mudança de ramo (e de rumos)

   Ontem no parquinho uma fofura me perguntou se eu estava de férias. Demorei um pouco para processar a pergunta (de praxe atualmente). Entendi o motivo, e respondi que não, explicando que meu trabalho é como o das babás: eu cuido de crianças. 
   E a doçura do questionamento me fez tentar entender por que, mesmo depois de oito anos sem férias e uma breve licença não programada, além da necessidade patente, que por si só justificaria uma transformação despreocupada da rotina, ainda fico reticente. 
   Parece que estou perdida (em todos os sentidos) na luta contra a realidade moderna: academias para crianças improvisadas em locais para adultos, ou até especializadas, mas com uma aceleração constante; instituições que desconsideram o papel dos pais na vida do filho (até porque muitos não querem ter amolação mesmo), antecipam a alfabetização por não saber o que fazer com quem inicia a vida escolar tão cedo, ou não assumem o contratado; o desencontro entre as jornadas, o que demanda uma agenda exigente para os pequeninos, etc e tal.
   Definitivamente, minha cabeça é fora desse mundo. Até para aquelas que se intitulam alternativas na maternidade, apropriando-se de termos e sentimentos que todas têm, acho que meu apego é demais.
   Enfim, muito angustiante mudar de ramo. Mas com fé e aceitação, a gente consegue.

(23 de julho de 2014)

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Manchete de jornal

Quem disse que apenas o famoso
vira manchete de jornal?
Para cair na boca do povo
basta ser temperamental.

Notícia ruim corre bem rápido,
traz o comportamento curioso;
apoio condicionado e frágil
que não resiste ao furioso.

Pouco importa que se esclareça
que o incômodo é pontual,
não há comoção que dure
para o segundo temporal.

Diante da inércia relatada,
procuram nos classificados:
viagem para flashes e aplausos,
que importa o corpo esticado?

Alegria, o moribundo resistiu!
Esquecem os próprios dilemas -
é hora da mesa redonda,
discutir a origem do problema.

Seria o gene, o ar, a água, a comida?
De certo não, fatalidade é para os seus.
Pelas escolhas que fez na vida,
só pode ser o castigo de Deus.

Julgamento sem contestação,
pena de pronto aplicada;
melhor ficar com a única versão
daquela testemunha ilibada.

E seguimos na mesma pauta
condenando quem está doente,
doce ilusão é o que não falta
na tribuna do descontente.

Da redação:

Por mais que se reportem
às mensagens dos jornais,
a outra vida segue plena,
trincada em linhas verticais.

Notinhas pequenas à parte,
é a recente sinopse que diz:
enquanto perdura o debate,
o preso vai liberto e feliz.

domingo, 22 de junho de 2014

Uma graça alcançada - o milagre das células tronco


   Sabe quando o choque da graça alcançada é tão grande, tão grande, que você custa a processar para dar a notícia?

   Muitos sabem que, há exatos dois anos, retornávamos de uma estadia de 45 dias em Barcelona, na esperança de que a pesquisa com células tronco pelo menos aliviasse as fortes dores decorrentes de uma discopatia degenerativa, sem qualquer tratamento paliativo ou cirurgia aplicáveis no Brasil. 
   De uma nota na internet, foram vários e-mails e telefonemas num portunhol suado, até que o caso foi aprovado. E nós viemos com as crianças, as malas e a coragem, sem saber se era a luz da oportunidade divina, ou simplesmente uma loucura de quem não enxergava nada além do caos no desespero. 
  Na nossa aventura em família, experimentamos um turismo diferenciado, de quem não cruzou o oceano para passear. As belezas que conhecemos nessa maravilhosa cidade foram os bônus que vieram com a tempestade.
   Caíram muitas lágrimas ao preencher o primeiro questionário de acompanhamento, três meses após a inoculação das células nos discos vertebrais: nada de trégua do desconforto. Questionamos, em nossa fraqueza, se todo aquele esforço não teria sido em vão. 
   Sessenta dias depois, já percebemos uma melhora e a dor foi, aos poucos, dando um descanso. Rotina de trabalho retomada, momentos sem notar que a coluna existe. Mas foi outra turbulência, nova fase de testes para a tropa, que nos mostrou o quanto as pequeninas haviam trabalhado em silêncio. 
   Agora, nessa nova viagem cheia de incertezas e contratempos, os exames comprovaram que houve significativa regeneração no disco que mais incomodava, e que o segundo não degenerou, como seria de se esperar para o quadro. Os médicos ficaram bastante satisfeitos com o resultado, e consideram que a intervenção foi muito bem sucedida. Alegria e gratidão!
  Nós louvamos ao Senhor por esse milagre, operado por meio de profissionais abençoados, que dedicam seu tempo a descobrir formas de amenizar a aflição alheia. Dor física muitas vezes invisível aos olhos dos mais próximos que, por isso mesmo, julgam o desgaste emocional e não atendem ao clamor por paz de espírito ou compreensão. Cada dia me admiro mais da linda missão dos trabalhadores da área da saúde.
   Agradecemos a todos os amigos e familiares que sempre nos apoiaram nessa jornada, seja com orações, com telefonemas, com conversas e alento virtual (porém real), com visitas desinteressadas e conformadas, com a grande ajuda pessoal nos momentos mais dramáticos, e também com os chacoalhões necessários.
   O sorriso largo ao marcar o risco próximo ao 'ningún dolor' no gráfico e a felicidade de ver, nas fotos, ações espontâneas que há pouco seriam improváveis, nos dão a certeza de que tudo de bom, de nem tão legal e de difícil que enfrentamos até hoje serviram, de alguma forma, para que fôssemos dignos de receber essa dádiva. 
   E nós torcemos, de coração, para que essa pesquisa chegue logo ao nosso país e possibilite melhores condições de vida para as inúmeras pessoas que padecem daquela dor silenciosa e crônica. 'Daquela' sim, porque já faz parte do nosso passado, e espero que continue por lá. A comemoração da leveza era, realmente, uma questão de tempo. 
(http://remandocontraacorrenteza.blogspot.com.br/2012/06/questao-de-tempo.html)

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Medalha


Nos pequenos prazeres,
as maiores conquistas
de uma escola invertida.

Testes que muitas vezes
trazem no erro as pistas 
e premiam o sentido da vida.

Se a incerteza diploma 
e ensina a seguir na maré, 
a medalha que condecora
é uma simples amora no pé.






segunda-feira, 12 de maio de 2014

Prece de mãe

        Nenhum presente que eu poderia pedir superaria os que tenho ganhado: nos piores momentos, a oportunidade de verificar que a única coisa da qual eu não me arrependeria era de ter dedicado meus últimos anos a este ofício; essa semana, a bênção de cuidar da casa, cozinhar e colocar meus filhos no carro para um passeio no centro de saúde e no dentista. Ações corriqueiras e trabalhosas, antes já prazerosas, que agora têm ainda o sabor de vitória.
       Os bilhetes e cartões que recebo revelam a ingenuidade da criança que não enxerga os defeitos da mãe. Mas eu não sou aquela figura de poema e folhinha, sou de carne e osso, humana falível nos desafios da vida, e um dia eles perceberão isso. Por isso eu peço a Deus que nunca me deixe esquecer o quanto de erro e destempero meus essas crianças aguentam, para que, no futuro, eu tenha discernimento para entender suas dificuldades de adultos, boa vontade para escutar seus pedidos e sabedoria para ajudá-los não da forma que eu considere acertada, mas sim da maneira que melhor lhes alente o coração.
          Feliz todo dia, porque todo dia é dia de luta das mães, dos pais, e dos filhos também.


Escrevo porque preciso

Escrever é uma necessidade...  O pensamento chega, o texto se ajusta de forma meteórica e necessita ser externado. Um process...