quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A trilha mais longa


É curioso como se coloca o mundo corporativo no topo. Vidas corridas, famílias negligenciadas, saúde comprometida, simpatias forjadas pelo suprassumo de uma posição tão tentadora quanto efêmera.
O corredor que pulou degraus olha os outros lá de cima, acreditando que todos se submeteriam às provas que o fizeram chegar ali.
E critica quem prioriza outras facetas da vida... Quem vê mais valor num sorriso da criança que aprende a andar, quem admite que precisa economizar o parco recurso da saúde, quem se satisfaz com coisas que o dinheiro não compra, quem não abre mão de sua personalidade em prol de uma amizade fingida e recusa o próximo passo. 
Status pra uns é ser CEO ou autoridade. Status pra outros é conciliar o impossível em prol da ascensão profissional. Status para alguns é trabalhar bem, não importa a posição que ocupem e a remuneração que recebam. Status pra outros é olhar pra trás e ver que nunca perderam a essência.
Quem está certo eu não sei, mas errado deve estar aquele que coloca seu objetivo como o único possível e quer que todos sigam seu caminho. 
Atalhos existem, mas precisamos respeitar quem, deparando-se com a bifurcação, se apega à bagagem e escolhe os percalços da trilha mais longa.

6 de dezembro de 2017

Gentil é aquele que aceita o direito do outro se expressar.


Vez ou outra vem a imagem de um professor do ginásio que, ao entregar a redação corrigida, disse que eu escrevia muito bem, mas meus textos eram mórbidos demais. Lembro-me perfeitamente de fitá-lo por poucos segundos, dizer algo como 'tá bom' e seguir para a carteira, admirando a nota máxima. Não o agradei naquela produção, obviamente, mas ele soube separar sua visão de mundo da minha verdade, não usou de sua posição para descontar um décimo do texto impecável. Eu tinha o direito de expressar meus pensamentos. 
Já no colegial, outro professor, ao entregar a correção do texto opinativo, disse que estava muito bom, asseverando que se eu mudasse minha opinião sobre o tema controvertido, ele aumentaria a nota para "B". Lembro-me perfeitamente de fitá-lo e responder (com a polidez que a natureza me permitiu) que eu não iria mudar minha visão apenas para agradá-lo. Se eu escrevi bem, mas o critério para a nota era concordar ou não com ele, eu preferia ficar com meu "C". Diante de seus olhos arregalados, segui para a carteira admirando aquela nota que eu abominava e poucas vezes obtive. Mas naquele dia eu me dei um valor para o "C". Eu tinha o direito de expressar meus pensamentos. 
Hoje, lendo o livrinho que guardei dos tempos de escola, amostra pequena do tanto que devo ter produzido, vejo que a atração por temas mais mórbidos, negativos, realistas ou crus, a depender do ponto de vista, vem desde sempre. Possivelmente nasceu comigo, talvez atrelada à facilidade em enxergar algumas coisas como de fato se mostram, à característica de não conseguir colocar uma cortina de fumaça sobre o que vejo. Se eu vejo, seria muita crueldade comigo fingir que não, apenas para amaciar o ego de quem pensa diferente ou resiste em admitir o que vê. 
Característica tão dura e cruel com quem me escuta ou lê, é verdade. Característica que me faz ser procurada muitas vezes, exatamente por não amenizar e falar o que poucos têm coragem, é verdade também.
Característica que me proporciona mostrar aos meus filhos a realidade do mundo em que vivem, e não do universo ideal que eu gostaria de embrulhar de presente, que me obriga a ensiná-los a se proteger inclusive da minha crueldade.
Todos temos um pouco de morbidez, todos somos cruéis com palavras, ou a falta delas, com o grito ou o silêncio, com o destempero do contato físico ou a inexistência do abraço. Muitas reencarnações de buda, espíritos a serviço da iluminação esbravejarão o contrário, que sou pessimista além da conta. Verdade absoluta, antecipo. Raios de luz, paz e bem, contestando o livre arbítrio alheio - cada qual com sua realidade.
Feliz deve ser aquele que enxerga o que realmente é quando se olha no espelho. Aquele espelho, que lembra vidro, que quebra fácil e não se aconselha colar: o outro.
Gentil é aquele que aceita o direito do outro se expressar.
Professores sempre ensinam, na bronca, na nota justa ou injusta, no entendimento momentâneo ou após décadas. 
Deve ser por isso que alguns acontecimentos a gente nunca esquece.

25 de novembro de 2017

Enfáticas


Sendo entrelinhas, dramáticas
Quando ouvido aberto é mouco
Por suposição, poções mágicas
Onde entendimento vem de louco

Escreve mesmo assim, com estacas
Retumba coração - não fica rouco
Grita mesmo assim, às maritacas
Que força necessária vem do pouco


20 de novembro de 2017




Cena de domingo


Sabe aquela cena linda da família toda arrumadinha, saindo alegre logo cedo no domingo, para ir à missa ou para passear? Aqui, não. 
Na nossa casa, estando tudo nos conformes, é frequente a bronca dominical.
Como as crianças acordam com as galinhas, há domingos em que o sermão rola antes das 7h da manhã. Os desobedientes contumazes se ajoelham para pegar os calçados e os brinquedos esquecidos no chão, correm para colocar tudo no lugar e tentam se justificar, enquanto ouvem as ameaças típicas e as frases da mãe caricata. 
O milagre se aproxima: de repente, para não ter que cumprir a penitência de fazer a limpeza, os pequeninos descobrem como organizar seus pertences em dois minutos, trabalhando como uma equipe de irmãos que se ajudam. Afinal, são todos filhos daquela mãe e precisam se unir na fé para dar um fim naquela ladainha. 
Maravilha fraterna identificada, chega a hora de formar a fileira para ouvir mais uma vez os mandamentos da casa arrumada, a celebração do menos bagunceiro e a advertência aos desmemoriados. A pregadora enfatiza que nunca se agacha para pegar coisas dos outros no chão, a não ser para jogar fora. Cuide cada um do seu, faça sua parte e respeite o lar, pois o castigo vem aqui da terra mesmo.
O 'aleluia' das crianças vem porque a falação acabou e já podem brincar. A alegria da tresloucada, pelo alívio de terminar a arrumação da sala antes do café da manhã. 
Aí sim, vamos celebrar o domingo.


21 de maio de 2017

Ah...



Ah, aquele abraço gostoso, que deixa o corpo cair na leveza do alívio... O sorriso sincero, o brilho nos olhos ao ouvir um 'estou melhor'... Como é lindo, como é difícil...
A preocupação constante se a mãe está doente. A comparação com a boa saúde do pai, aos olhos de um menino. A constatação de que ela antes não ficava tanto tempo na cama, não tinha tanto mal-estar e não reclamava muito de dor de cabeça. A conversa entre os irmãos no café da manhã, lembrando do susto/medo quando viram o cabelo curto, que comprido é mais bonito...
Nenhuma criança deveria passar por isso, por anos seguidos. Mas é só tomar um remedinho e vida normal, né.

02 de março de 2017

Democracia fajuta

A arrogância da ditadura de opinião não tem limites.
Quer ver gente arrotando ideologia, cobrando do outro o que não faz, pelo bem da comunidade? 
Quer ver como o olhar sobre as regras muda quando se passa de situação para oposição?
Quer ver gente desrespeitando norma que ajudou a criar, só porque não está mais no comando? 
Quer ver gente querendo condenar o outro por fazer algo lícito, que era costume na gestão do julgador?
Quer aguentar gente te dando orientações, te puxando pra um lado do muro, desconsiderando que você também raciocina e tem direito de agir conforme sua consciência? 
Quem precisa de discussão em timeline, quem se ilude com uma bomba no Congresso...
Quer entender como é a democracia fajuta? Viva em condomínio.


28 de abril de 2017

Diário de uma pessoa deslocada nesse mundo cão


Diário de uma pessoa deslocada nesse mundo cão:
Em Brasília, Carnapet com direito a desfile de fantasia animal e cineminha de interesse da plateia majoritária, com o filme 'A dama e o vagabundo'. Me pergunto qual seria a marchinha mais apropriada para o bloco. 
Na chamada de uma notícia sobre hospital veterinário: 'Atenção, mamães de pets'. Vem a leitora nos comentários: 'Por que só a mamãe? O papai tem que participar também!'. Vejo que a problemática sobre a igualdade de gênero chegou na missão de levar o filhote para a tosa.
No supermercado, a ração já está na gôndola ao lado da dos salgadinhos Elma Chips. Penso que minha profecia de que um dia a ração estará na prateleira da papinha Nestlé e do Leite Ninho está prestes a se cumprir. 
No restaurante, a mulher não satisfeita em carregar o baby dog no colo enquanto almoça, o coloca sobre a mesa na qual os próximos clientes apoiarão seus pratos. Chamo o garçom e peço para trocar a toalha. 
No Mineirão, o evento é a inauguração da 'Arcãobancada', com direito a comidinhas e brinquedinhos. Fico na dúvida se no estádio já existe um espaço vip para crianças (filhos humanos dos torcedores). Também imagino quando será formada a torcida organizada canina e qual será o latido de guerra.
Ainda a tempo de lembrar do vídeo ensinando a ler para o cãozinho desde a mais tenra idade, fico no aguardo de mais novidades do mundo animal.

PS: Não posso deixar de citar o ensaio fotográfico gestante, estrelando a cadela, numa nova abordagem da maternidade. Quando vejo, quase chego a me culpar por não ter feito nenhum.


21 de abril de 2017

Escrevo porque preciso

Escrever é uma necessidade...  O pensamento chega, o texto se ajusta de forma meteórica e necessita ser externado. Um process...