Não faça da perna do outro uma muleta, se você é capaz de andar.
Caminhe lentamente, corra, pule, tropece, levante, caia de novo.
Chore sua dor, fortaleça corpo e mente, mas nunca deixe de enfrentar.
Apoio é sempre bom, mas a ajuda que te substitui nas lutas mais perenes
Pode se transformar no grande obstáculo que te impede de caminhar.
http://www.youtube.com/watch?v=v-gCYN3mkYA
terça-feira, 30 de abril de 2013
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Todo trabalhador é gente
Certo dia, nos meus tempos de bancária, atendi uma senhora possessa, que reclamava que um dos atendentes havia saído da mesa para seu horário de almoço (míseros 15 minutinhos). Delicadamente, apenas respondi: "Minha senhora, bancário também é gente. Como todos aqui, ele precisa comer. É um rodízio, enquanto um almoça, os outros continuam o atendimento."
Conheço um moço que, por recusar-se a fazer horas extras usando a senha do chefe, ou seja, sem receber por isso, não passou no período de experiência e perdeu o emprego no banco. Tempos depois, o banco, talvez cansado das inúmeras ações trabalhistas sobre o assunto, modificou seu sistema para impedir esse tipo de abuso. Não sei como está hoje, mas na época serviu para conscientizar muitos chefes e escriturários, e eu tive a sorte de trabalhar em uma agência onde esse tipo de fraude era inadmissível. Ah, a agência era em Brasília, acreditem. Quem vem de outros Estados encontra honestidade por aqui.
Esse mesmo moço (deve ser maluco!) também se recusou a trabalhar em um escritório de advocacia como empregado não registrado, sem horário definido, defendendo ideias nas quais não acreditava e impedido de assinar petições, atender clientes ou participar de grupos na OAB. Saiu, com a cara e a coragem, e foi ralar.
Enquanto tentava a sorte na advocacia durante o dia, trabalhava de madrugada em um jornal, numa atividade que nada tinha a ver com sua formação jurídica. Segunda a sábado, às vezes aos domingos. Conversava com a esposa cerca de meia hora por dia e, nas horas vagas, estudava sozinho para dois concursos. Num deles, passou.
Resultado do inconformismo, da luta por seus direitos, da consciência do valor do seu trabalho: está num emprego muito bom, consegue ter tempo para a família e aprimorar-se ainda mais. E, claro, deve agradecer aos patrões que tentaram tolher seus direitos, pois essa atitude o fez sair da área de conforto e trilhar um novo caminho.
Essa história me faz lembrar que: bancário é gente, jovem advogado é gente, servidor público é gente, doméstica é gente, ou seja, todo trabalhador é gente.
Meu marido trabalha fora dois turnos, e um turno em casa. Apenas nos primeiros ele é remunerado, pois trabalha para os outros, e no terceiro não. Como dona de casa, trabalho três turnos ininterruptos na mesma função, sem horário de descanso e, claro, não sou remunerada. Por quê? Simplesmente porque trabalho pra mim, em prol do que é meu, cuidando da minha casa e dos meus filhos, assumindo os ônus que a constituição de uma família traz.
Se eu trabalharia 15, 18 horas para alguém sem lutar pelos meus direitos? Como sei meu valor, respondo: trabalho voluntário, apenas para pessoas carentes.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Com quem será que meu filho vai casar?
Festinha de aniversário, hora de cantar os 'Parabéns', e em seguida a musiquinha: “Com quem será que Fulano vai casar? Vai depender, vai depender se a Sicrana vai querer". Até que melhorou um pouquinho, porque na minha época a turma era taxativa: “É com a Sicrana, é com a Sicrana que o Fulano vai casar". Nunca gostei disso, acho chato e inconveniente.
Pensando bem, essa brincadeirinha ingênua deve refletir um hábito que muitas famílias e até amigos têm: o de querer ponderar e, nos casos mais absurdos, participar das escolhas amorosas daqueles que lhes são caros. Até arrepio quando ouço: “Não sei como vou reagir caso não goste do namorado da minha irmã”; “Minha filha vai se arrepender de namorar aquele cara”; “Pepê se casou com a pessoa errada”; “Não aceito meu pai arrumar uma namorada”, e por aí vai.
Daí eu pensei na loucura que poderá me abater mais para frente e resolvi fazer esse questionário, enquanto a lógica não perdeu tanto espaço para a despirocagem que costuma aparecer com o tempo. Se por acaso ela me acometer, espero que essas linhas me devolvam um pouco de lucidez e livre meus filhos desses comportamentos.
Esclarecimento: Como pimenta nos olhos dos outros é refresco e muitas vezes não olhamos para dentro ao criticar a vida alheia, as perguntas são direcionadas às experiências de quem responde o questionário. As palavras estão no feminino, pois são dirigidas a mim e, como só tenho meninos, utilizo o termo 'filho'. Mas as situações se aplicam a qualquer gênero e parentesco, já que qualquer amigo ou parente pode se transformar em serpente.
Sem mais lengalenga, vamos às questões.
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PERGUNTA BÔNUS - Você tem ou terá o direito de exigir que seus filhos maiores de idade e independentes tenham uma postura igual ou diferente da sua?
Mantra Oficial para a resposta afirmativa: ‘Querer não é poder.'*
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1) Você é sozinha?
() Não._ Já que é namorada, casada, juntada, amigada, enrolada, ou seja, tem um parceiro, siga para a pergunta 2.
() Sim. Responda:
1.1) Gostaria de encontrar um parceiro ou já teve algum relacionamento amoroso?
() Sim. _Siga para a pergunta 2 e responda como se fosse comprometida.
() Não._Pare o questionário por aqui, pois sua experiência não lhe qualifica para opinar sobre a vida a dois. Obrigada pela atenção. Em caso de inconformismo, vá para a Pergunta Bônus.
2) Você foi forçada a namorar alguém ou terminar um namoro, casou-se ou divorciou-se contra sua vontade?
() Não. _ Siga para a pergunta 3.
() Sim. _ Lamento muito. Responda:
2.1) Gostaria que seu filho passasse pela mesma situação ou o obrigaria a isso?
() Sim. _ Vá para a Pergunta Bônus e reavalie sua resposta.
() Não. _ Siga para a pergunta 3.
3) Você:
() Aceitou a primeira pessoa que lhe pediu em namoro, mesmo sem gostar, pois não poderia perder essa chance única.
() Foi felizarda em ter como primeiro namorado o amor de sua vida.
() Teve alguns pretendentes, mas escolheu dividir a vida com a pessoa que ama.
() Namorou algumas vezes até encontrar o parceiro ideal.
() Namorou algumas vezes, mas ainda não encontrou a tampa para o seu balaio.
** Qualquer que tenha sido sua resposta, vá para a Pergunta Bônus e depois siga para a questão 4.
4) Você:
() Poderia escolher um marido a dedo, já que é a última bolacha do pacote e seria disputada a tapas por deuses gregos na prateleira do supermercado. Seu companheiro tem que agradecer aos Céus por ser ‘O Eleito’. (Na dúvida, coloque-se à disposição e veja se encontra muitos pretendentes bons, aprovados por você)
() Concorda com a afirmação acima e garante que com seus filhos será a mesma coisa, já que carregam o seu sangue nobre.
() Encontrou seu amor em meio a tantas pessoas no mundo e não se imagina casada com outra pessoa.
** Qualquer que tenha sido sua resposta, vá para a Pergunta Bônus e depois siga para a questão 5.
5) Você:
() Assim como seus familiares, é lúcida e capaz de escolher o que considera o melhor para si. _ Siga para a pergunta 6.
() Ao contrário de seus familiares, é lúcida e capaz de escolher o que considera o melhor para si. _ Peça a interdição dos familiares, mas caso o juiz não a autorize, siga para a pergunta 6.
() Assim como seus familiares, tem dificuldade de discernimento ou outras limitações. _ Pare o questionário por aqui e agradeça seu parceiro pela dedicação, é sinal de muito amor. Se ainda não te interditaram, provavelmente não questionarão seu relacionamento, tampouco te deixarão interferir no deles.
6) Você (pode assinalar mais de uma opção):
() Teve um namoro tranquilo e sem contratempos.
() Teve um namoro conturbado, que mesmo assim resultou em casamento.
() Não teria se casado caso sua família reprovasse o namorado e seguiria feliz.
() Acabaria com o relacionamento e tudo que construíram, em respeito às duras críticas que a família faz ao seu parceiro, e voltaria radiante aos braços dos seus pais.
() Substituiria sua relação amorosa pela companhia de amigos e parentes, pois elas são concorrentes e inconciliáveis.
() Tentaria uma convivência harmoniosa. Caso não fosse possível, ignoraria os torcedores contra e seguiria a vida a dois.
() Nem tentaria uma convivência pacífica e daria uma banana para quem não aceitasse suas decisões.
** Qualquer que tenha sido sua resposta, vá para a Pergunta Bônus e depois siga para a questão 7.
7) Você (pode assinalar mais de uma opção):
() Reconhece os defeitos de seu parceiro e se esforça para ter um relacionamento agradável, visto que ele atura suas imperfeições também.
() Não tem defeitos e não enxerga falhas no seu parceiro – tudo nele é bonitinho, um charme!
() É feliz na relação, apesar dos contratempos.
() É feliz na relação e nunca passou por dificuldades.
() É infeliz no casamento, mas decidiu mantê-lo mesmo assim.
() É infeliz no casamento e está providenciando o divórcio.
() Vive exatamente como seus pais vivem/viveram ou esperam que você viva.
() Adotou alguns hábitos de sua família e adaptou-se aos costumes do parceiro, criando uma identidade única para o casal.
() Aceita intromissões de qualquer ordem, inclusive faz uma mesa redonda familiar para todas as suas questões.
() Não aceita intromissões. Ouve conselhos, mas segue aqueles que lhe convêm.
() Não aceita conselhos de quem quer que seja.
** Qualquer que tenha sido sua resposta, vá para a Pergunta Bônus e depois siga para a questão 8.
8) Você:
() Passaria ou passou por desilusões amorosas de propósito, a fim de lapidar a alma.
() Procuraria/procurou parceiros problemáticos e terminou namoros apenas para desafiar seus pais.
() Acredita que desilusões amorosas causam muito sofrimento nas pessoas, e com você não seria ou não foi diferente.
() Acha que existe um limite de tentativas de namoro e desistiria de encontrar um parceiro depois da terceira ou quarta frustração.
() Não concorda com esse limite, mas acataria o posicionamento da família e desistiria de encontrar um parceiro depois da terceira ou quarta tentativa.
** Qualquer que tenha sido sua resposta, vá para a Pergunta Bônus e depois siga para a questão 9.
9) A vida pregressa, a personalidade, as manias, os erros e vícios do seu parceiro, o modo como ele se dirige a você, a estabilidade/instabilidade e a rotina do casal interessam a:
() Você e seu parceiro.
() Você, seu parceiro e seus filhos menores.
() Você, seu parceiro e seus filhos maiores.
() Você, seu parceiro e seus amigos.
() Você, seu parceiro e seus familiares.
() Você, seu parceiro, seus filhos, amigos, familiares, os vizinhos e o cachorro.
() Todos da alternativa acima mais a torcida do Corínthians.
() Qualquer um, menos você e seu parceiro.
** Qualquer que tenha sido sua resposta, vá para a Pergunta Bônus e depois siga para a questão 10.
10) Assinale as alternativas corretas:
() Pago minhas contas e assumo minhas responsabilidades, portanto não tolero pitacos.
() Pago minhas contas e assumo minhas responsabilidades, mas mesmo assim gosto de ouvir pitacos.
() Não pago minhas contas e/ou delego minhas responsabilidades, por isso aceito que me questionem.
() Não pago minhas contas e/ou delego minhas responsabilidades, mas não admito intromissões.
() Gosto quando respeitam minha individualidade, mas tenho o direito de ditar as regras para meus familiares ou expor minha opinião sobre seus relacionamentos.
() Como prezo minha individualidade, espero ser chamada para emitir meus pareceres.
** Qualquer que tenha sido sua resposta, vá para a Pergunta Bônus e volte para a pergunta 11.
11) Quem tem que gostar do seu parceiro é:
() Você.
() Você e seus filhos.
() Você e seus amigos.
() Você e seus familiares.
() Você, seus filhos, amigos, familiares, os vizinhos e o cachorro.
() Todos da alternativa acima mais os trabalhadores das indústrias chinesas.
() Todos, menos você.
** Qualquer que tenha sido sua resposta, vá para a Pergunta Bônus e volte para a Conclusão.
Conclusão:
Nosso teste chegou ao fim e, ao contrário do que você pensa, não ratificará a sua receita da felicidade, pois a verdadeira ainda não foi encontrada pelos reles mortais. Pode ser duro, mas acredite: você não a tem. Por isso reflita bem, seja sensata e permita que seus filhos sejam felizes, cada qual à sua maneira. Não corra o risco de perder o coração de um ente querido ainda vivo. Na dúvida, releia sempre a Pergunta Bônus.
*Lembrando que você sempre pode recorrer ao Judiciário nos casos extremos.
**Texto comemorativo.
*Lembrando que você sempre pode recorrer ao Judiciário nos casos extremos.
**Texto comemorativo.
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
O pavão com o rei na barriga
Sempre a mesma
história. O pavãozinho com o rei na barriga chegava, e sua inabalável alegria para
os outros animais alardeava. Sorriso aberto, aos quatro ventos bradava: “A
festa é minha, esse lugar é meu! Foi você quem construiu, mas não nos damos
bem? Problema seu!”
Felicidade
desconcertante - de tudo entendia, era exemplo de amor e harmonia, o ambiente dominava,
os demais convidados ofuscava. Em cada encontro, o grupo se transformava em
plateia daquela ave bem aparentada, e ai de quem ousasse dividir com ela o
mesmo espaço ou os mesmos afetos. Alguns bichos, fascinados pelas belas plumas,
viam-se obrigados a garantir que a espécie rara não fosse incomodada no hall da
fama.
Mas nada
agradava o dono da longa e colorida cauda – tudo era chinfrim demais, sempre
queriam puxar seu tapete vermelho, nada atingia o seu alto patamar de
exigência, fazia questão de provocar os administradores do zoológico. Tragédia anunciada: passadas algumas horas de animação, seu ensaiado
deleite se transformava em angústia e reclamação. Festividade para todos encerrada,
só restava a energia pesada.
Então o
buchicho começou: “Como pode? Tão perfeito, sempre feliz! Será
que a majestade dentro dele não é tão rica assim como se diz?”, perguntava a
bicharada, cansada de tanta decepção com as tentativas frustradas de festejar com a insaciável ave.
Os
animaizinhos fizeram então uma reunião, e decidiram encerrar de vez essa
questão. Chamaram o doutor lagarto, e ficaram boquiabertos com o resultado do
ultrassom: o pavão, coitado, não tinha o imperador em sua pança! Lá dentro
morava um vampirinho mendigo, tão triste, e tudo o que ele fazia era implorar por
atenção e rogar por migalhas da alegria alheia. Pobre chupim, de tão
solitário que estava, queria companhia na sua amargura e acabava fazendo o pavão colocar o
peso da sua infelicidade nas costas não somente dos seres que repugnava, mas também daqueles que mais gostava.
Após esse episódio, os amigos do zoo perceberam que quem está realizado não precisa de megafone e que a insistência no desdém vem sempre daqueles que querem colocar os outros na sua péssima vibração. Finalmente, viram que era inviável continuar se sacrificando para atender às ávidas súplicas do pavãozinho que, deslumbrado, ainda aguarda o convite para a próxima festa... Mal sabe ele que a bicharada não cogita uma confraternização tão cedo.
Após esse episódio, os amigos do zoo perceberam que quem está realizado não precisa de megafone e que a insistência no desdém vem sempre daqueles que querem colocar os outros na sua péssima vibração. Finalmente, viram que era inviável continuar se sacrificando para atender às ávidas súplicas do pavãozinho que, deslumbrado, ainda aguarda o convite para a próxima festa... Mal sabe ele que a bicharada não cogita uma confraternização tão cedo.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
O quadro dos meninos felizes
"Zezé é o legal, mas feio; Dudu é o gênio, mas chato; Mimi é a boazinha, mas doida"
Rótulos são bastante perigosos,
principalmente aqueles estabelecidos por familiares e pessoas mais próximas. O
problema é que, de tanto ouvi-los, a criança pode passar a se definir por eles.
Como ela ousaria duvidar daqueles que, em tese, a conhecem melhor que
ninguém?
Podemos ser bem-intencionados,
mas, como humanos, cometemos inúmeros lapsos ao falar sobre e com os nossos
filhos. Seja num momento de impaciência, na hora de resolver uma briga ou em
uma conversa com os amigos, vira e mexe sai um comentário não muito legal ou exageradamente bom. A criança, que ouve sempre as mesmas observações, percebe como é notada pelos outros, passa a reforçar o comportamento que teve tanta repercussão e faz dele um hábito, por vezes não muito saudável. Aqui em casa não é diferente.
Certa vez, um adulto disse a um dos meninos que ele
não poderia ser o baterista da bandinha, porque não levava jeito para tocar o
instrumento (de brinquedo!) e o bom nesse departamento era o irmão. Por mais
que nós explicássemos que não tinha nada a ver e que ele podia tocar o que quisesse, demorou quase um mês para ele deixar de falar que era incapaz de usar a bateria.
Um tem medo do escuro, de cachorro e de ficar
sozinho. Começou a dizer que era medroso diariamente e a usar essa palavrinha para justificar várias recusas. Sempre dizia que tinha muita vergonha, que não
conseguia fazer muitas coisas, que era muito lento, e por isso decidiu não se empenhar em algumas atividades.
O outro descobriu que ser bravo o tornava
diferente dos demais. E deu para reclamar de tudo, dar chilique, fazer birra...
Não adiantava dizermos que ele não precisava fazer coisa feia para chamar nossa
atenção, pois ele estava decidido que seria o nervosinho da casa. Pior, dizia
que não era feliz. Por quê? ‘Ué, porque eu
sou bravo, né!’
Foi então que me veio à cabeça uma atividade
usada nas aulas de inglês. Basicamente, os
alunos escrevem ou colam adjetivos positivos nas costas dos amigos, e ao
discuti-los revisamos seus opostos. Adaptei a ideia à idade da galerinha e montamos juntos o “quadro dos meninos felizes”.
Levando em consideração nossa realidade, imprimi
e recortei alguns adjetivos. Base na cama, colamos primeiro as fotos deles. Cada um colava uma palavra no quadro e conversávamos sobre ela. Expliquei, por exemplo, que ter medo de algumas coisas é normal e isso não faz dele uma pessoa medrosa, pois tem coragem para realizar muitas proezas. Que uma pessoa brava não é obrigatoriamente triste - ele pode ser feliz e ter momentos de nervosismo, é natural reclamar de vez em quando. Que é amigo e simpático quando empresta os brinquedos, que é esforçado e o importante é tentar, que consegue ser rápido em muitas atividades, que é amado por nós de qualquer maneira, etc.
Para finalizar, eles colaram alguns adesivos
e fixei a montagem na parede do quarto. Durante alguns dias, reforçamos todas
as palavras antes de dormir, e atualmente o quadro é utilizado em vários
momentos de choro ou elogios. Resultado: eles se orgulham e continuam decorando
a ‘obra de arte’, e faz um tempinho que não os ouço se autodesqualificando.
Evidentemente, consigo detectar as
inclinações e as características marcantes da personalidade de cada filho. Mas não posso rotulá-los e induzi-los a permanecer nessa
embalagem, pois a criança de hoje não necessariamente determina como será o
adulto de amanhã. Até mesmo aplausos excessivos podem gerar muita pressão nessas cabecinhas.
Escorregões de minha parte ainda acontecem?
Sim, e certamente continuarão a ocorrer, assim como eles sempre ouvirão
críticas negativas ou supervalorizadas de várias outras pessoas. Mas o
importante é que eles cresçam conscientes de que ninguém é perfeito, que nossas
qualidades e defeitos são variáveis conforme a situação e percebidos de
diversas formas, dependendo muito do interlocutor.
Meu desejo é que eles tenham discernimento para: não depender de
terceiros para se valorizar; não se definir pela opinião alheia; moldar suas atitudes às necessidades do momento e reconhecer suas falhas; achar graça e conviver bem com algumas limitações; não absorver em absoluto e para todo o sempre qualquer adjetivo, bom ou ruim, mesmo que lhes tenha sido imputado por mim.
Enfim, que entendam a diferença entre dizer: “Eu ESTOU chato/triste/bravo” e “Eu SOU chato/triste/bravo".
Enfim, que entendam a diferença entre dizer: “Eu ESTOU chato/triste/bravo” e “Eu SOU chato/triste/bravo".
A tarefa é árdua, mas não custa tentar...
domingo, 16 de setembro de 2012
Fobia de salão
E lá está
Amora, totalmente afônica, esperando sua vez no salão de beleza. Revista
na mão, mal vê a hora de sair daquele lugar.
No dia anterior,
havia se submetido ao torturante encontro com a manicure e pedicure. Sessão solene,
que ocorre apenas em função de eventos especiais e irrecusáveis, pois ela nunca
firmou compromisso semanal para tirada de cutícula acompanhada das últimas
fofocas. Uau, já faz dois anos... Epa, esmalte vermelho e berrante, nem pensar! Ela tem seu kit caseiro básico, utilizado em momentos de necessidade (ou quando
vem um raríssimo desejo).
Logo nos
cumprimentos, avisa que está com uma laringite da braba, na esperança de que
não seja submetida ao interrogatório feito pela profissional já íntima e
curiosa pelas novidades. Mas não, parece que esses colunistas verbais vivem de
notícias, querem saber da sua vida a qualquer custo. Na tentativa de
ser simpática, a cliente se esforça para responder com sofridos sussurros.
Finalmente a
cabeleireira religiosa desiste do diálogo truncado e passa a pregar para as
colegas de trabalho, deixando a mulher livre com seus pensamentos. Ah, mas que
pensamentos... Nas sacudidas durante a eterna lavagem dos cabelos, impossível
não relembrar os traumas pelos quais passou desde o início da adolescência.
A primeira (e
última) visita à depiladora. Terrível a lembrança daquela posição ingrata,
deitada na cama de frente e de costas, com as pernas abertas e partes íntimas quase tocadas por uma
estranha que lhe arrancava os pelos. O que era aquilo? Desde
quando alguém tinha que se submeter a tanto constrangimento para ficar com a
pele lisinha? É claro que a tímida moçoila deu seu jeito, e desde então
realiza sozinha sua depilação: lâmina, cera quente ou fria e até o depilador
elétrico (ela reclamou bastante no começo, mas agora é fã).
Qual será o
corte? A ‘colega’ ao lado, com a cabeleira besuntada de tinta, insiste: ‘Você
nunca tingiu? Zenaide, olha que cabelo macio! Qualquer penteado fica bom aí.’
Mas Momora, como é comumente chamada pelos mais próximos, dispensa aquele blá
blá blá e só ouve o sotaque da sua terra... Como é bom esse tom acaipirado!
A iniciação na
retirada da sobrancelha (e despedida também). A mãe carrasca, provocando os
gemidos com a pinça, e o terror diante do espelho: como ela andaria com aquele desenho
fino e certinho acima dos olhos? Prefere sua sobrancelha na espessura
natural, e o máximo que faz é retirar o excesso - quando se lembra,
quando dá vontade.
Quarenta
minutos depois, Amora pensa no tempo perdido naquela cadeira. Quanto mais terá
que aguentar? ‘Quer que eu coloque o
cabelo no lugar?’ Hã? Não sabe o que isso significa, mas libera a coiffeur para finalizar. Tudo para ir
embora - já está com gastura, dá até falta de ar!
Dois acontecimentos
memoráveis por suas conquistas, mas tenebrosos por suas exigências: formatura e
casamento, com os tormentos do cabelo arrumado e da detestada maquiagem. Na
preparação para o último evento, obrigou o maquiador a lavar o seu rosto e
fazer uma montagem mais branda. Ele usou o mínimo que pôde e ela, mesmo assim, não
se enxerga quando vê nas fotos a pintura feita sobre a ‘massa corrida’ passada
em seu rosto (piadinha inventada pelo irmão). A complicada acha que basta uma
maquiagem suave, apenas com batom, lápis fraquinho e rímel transparente. Gosta da beleza natural do dia-a-dia, não a da ilusão que vai embora
quando a cara é lavada.
Oh Senhor, o
puxão da escova! Será que é preciso tanta força? Se quiser descarregar a raiva,
compra um saco de pancada ou vai lutar boxe, praticar muay thai...
Uma hora e meia,
serviço acabado, ela abre o sorriso amarelo e diz que gostou do visual: o
cabelo escorrido, virado para fora, que deixa seu rosto maior e esquisito. É a última
moda, por que não variar as madeixas ligeiramente onduladas? Pelo menos não se
rendeu ao super topete com coque banana desleixado. A assistente aprendeu no
YouTube, tão bem bolado!
E lá se vai
Amora, absorta, a caminho de casa. Recorda os avisos e conselhos ouvidos de
todos os lados: ‘Compra um vestido e umas saias, parece um homem usando só calça!’;
‘Vai passar um batom, seus alunos merecem uma professora mais bem-arrumada!’; ‘Não
admita que seu namorado te impeça de usar frente-única, decote ou minissaia!’, ‘Ouça
sua avó, a obrigação da mulher é estar limpinha e cheirosa quando o marido
chega!’; ‘Marca um horário com a Tônia, ela faz sua unha rapidinho!’, ‘Vá tomar
um solzinho, parece leite condensado!’
Tanta insistência e incompreensão, nem as famosas merecem... Até parece que é crime sair na rua de cara limpa e sem estar periquitada!
Morinha (que delicada) veste calça porque se sente mais à vontade, não troca o conforto pela dor e boniteza do salto alto, descarta roupas curtas e decotadas porque detesta mostrar o corpo, se satisfaz com as unhas bem aparadas, odeia marcas
de biquíni (prefere morrer branquela a ser bicolor), recebe o marido no estado
em que as circunstâncias permitem, não dá a mínima para qualquer tendência da
moda.
A dama tem seu estilo peculiar, sabe o que é saudável e quer cuidar do
corpo, mas jamais se renderá à ditadura da beleza e à rotina do salão. Até gostaria de fazer amizade com a manicure, eleger o cabeleireiro favorito e fazer a
depiladora de confidente; são pessoas dedicadas, divertidas, que passam energia
positiva e elevam a autoestima da mulherada. Mas não coloca culpa na falta de
tempo, tampouco no excesso de atribuições... É que ela pulou a fila da vaidade
física, portanto fica impossível ser feminina demais nessa vida.
Parece que
será sempre assim, a difícil tarefa de se embelezar e vestir trajes de festa, as questões que nunca vão embora: Por quê?
Para quê? Quem foi a/o maldita/o que inventou tanta frescura? Sem lamúrias, pois
hoje não tem para onde correr... E daqui a seis meses, outro casório – quase tudo
de novo!
******
Rumo à festa,
Amora ouve: ‘Mãe, que cabelo é esse? Tira esse esmalte... Minha tia usa, toda
mulher usa, mas você não!’
******
Fofoca: tenho que contar que o esposo de Momô (que dengo), para tristeza de alguns, concorda inteiramente com ela e também não gosta de unhas pintadas, cara borrada (palavras dele) e vestimentas sofisticadas. Como pode elogiar alguém que está de jeans e camiseta, com o cabelo desgrenhado?!
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Hoje não, muito obrigada!
Tenho recebido convites novos, para péssimos programas antigos.
Propagandas
amáveis e tentadoras de peças teatrais com um velho conteúdo pernicioso,
superado após anos de sofrimento? Agora não, agradecida.
Ingressos para
filmes remasterizados, que não abandonaram o roteiro suspeito da manipulação e do
suspense? Sinto dizer que eu aboli a escuridão do meu cinema.
Chamados para assistir
à reprise da novela onde o protagonista apanha e chora até o final, mas o
bandido é poupado por se fazer de louco e bonzinho? Essa não vale a pena ver de
novo.
Sorteios de
presentes e elogios, realizados com o intuito da aproximação que leva ao tão conhecido
tripúdio? Recuso, pois isso nunca me atraiu.
Encontros ditos amistosos, com conversas que sempre levam a discussões de longa data, temerosas e
inacabáveis? Agradeço, mas não tenho tempo.
Participações em
ladainhas maquiadas ou problemas sem o enfrentamento imprescindível? Negativo, qualquer
opinião será malvista.
Reuniões nas
quais pensamentos divergentes não chegam a lugar algum e só resultam na
exposição de críticas já aparentes? Desculpem-me, não posso ir.
Viagens
cansativas com destino aos momentos de submissão e desprezo do passado, felizmente abandonados com o amadurecimento? Parece que as passagens se esgotaram e o
meu lugar não é mais aí.
Entendam como
quiserem, mas declinarei desse tipo de solicitação sem pestanejar, nada de rodeios ou
desculpas esfarrapadas. É que a vida está melhor do que há um ano e a alma mais leve que no mês passado, portanto não tenho motivos para retomar neuroses antigas ou reviver experiências doloridas. Eu quero convites interessantes, reencontros e filmes alegres, reuniões edificantes, viagens memoráveis, diálogos com boa vontade.
Se eu desejo pegar o primeiro retorno ou
seguir a trilha para qualquer ferida? Hoje não, muito obrigada. Meu foco é
outro, tenho minha missão para cumprir na vida.
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Escrevo porque preciso
Escrever é uma necessidade... O pensamento chega, o texto se ajusta de forma meteórica e necessita ser externado. Um process...
